quarta-feira, 6 de maio de 2009

Disciplina de Maratonista XI

O sonho virou realidade

Concluí, no último dia 4, os 42.195 metros da Maratona de Nova Iorque, com o tempo de 4h18m, sem desconforto, dores ou inconvenientes do grande esforço que se emprega para alcançar a reta final da mais desgastante das provas do gênero. E posso dizer que valeu a pena: se fosse um concurso público, eu teria sido aprovado e classificado.

Já escrevi e repito, agora com mais convicção ainda, que a disciplina de maratonista é fundamental para o sucesso de quem realmente deseja conquistar um cargo público por meio de concurso, em que enfrentará não apenas a maratona das provas, mas também milhares de concorrentes que têm o mesmo objetivo. Para alcançá-lo, é necessário pensar, agir e se dedicar à preparação como um corredor de maratonas.

Fui a Nova Iorque depois de preparação que durou um ano e três meses, com treinamentos duríssimos várias vezes por semana, além de participação em diversas provas semelhantes, entre elas a Maratona do Rio de Janeiro. Se não fosse isso, dificilmente teria conseguido chegar ao final desses pouco mais de 42 quilômetros e conquistar a medalha que agora tem lugar de honra em minha galeria de troféus.

O dia do maratonista em Nova Iorque começa às 5 horas da manhã, quando ele acorda no hotel e tem apenas uma hora para se preparar, o que inclui o banho e o café-da-manhã, pois às seis o ônibus está pronto para partir com os atletas para o local da largada. Chegando lá, começa uma longa espera, que dura nada menos que quatro horas, sob frio de 6 a 7 graus, pouco antes da Ponte Verrazano, no bairro de Staten Island. Ali, nada há para fazer a não ser esperar e procurar exercitar-se para aquecer a musculatura, enquanto a cada momento mais gente vai chegando e se aglomerando para participar da largada.

Esses são momentos de extrema ansiedade, e comparo essa espera com a do candidato nos momentos que antecedem a prova de um concurso público. Por isso, é preciso que ele esteja bem física e psicologicamente, para que corpo e mente possam se concentrar exclusivamente na meta que traçou para as horas difíceis que enfrentará a seguir.

Assim, como um concurseiro na véspera da prova, no sábado evitei extravagâncias e fui dormir cedo, para que na manhã seguinte – madrugada, na realidade – acordasse bem-disposto e descansado. Os cuidados com a alimentação são também essenciais, tanto para quem vai fazer prova como para o maratonista. O jantar da véspera foi rico em carboidratos (massas, principalmente), e o café-da-manhã, além de massas, incluiu leite e frutas. É preciso estar bem alimentado, tanto para correr como para passar de quatro a cinco horas fazendo uma prova de concurso público.

Não é à toa que a Maratona de Nova Iorque tem o status extra-oficial de Rainha das Maratonas. Calculo que pelo menos 50 mil pessoas tenham participado da prova, entre elas cerca de 300 brasileiros e alguns milhares de concorrentes que lá estão apenas pela farra, os chamados "pipocas", sem nenhuma preocupação de concluir a corrida. A largada é extremamente difícil, devido à enorme aglomeração, que torna quase impossível correr normalmente. Além disso, o frio de 6 graus é mais uma dificuldade a ser vencida pelo corredor.

Apesar de tudo, consegui realizar uma corrida estratégica, exatamente conforme o planejamento que desenvolvi nos treinamentos, sem forçar minhas condições físicas. Ao longo da prova, o tempo mudou algumas vezes: ora estava mais frio, ora estava mais quente, até a chegada ao Central Park, que estava gélido. Mas para mim o percurso foi um prazer, pois não apenas corri, como também pude apreciar todo o cenário em que se desenrolou a prova. Em nenhum momento fui ultrapassado; ao contrário, ultrapassei vários corredores, chegando em ótima colocação para minha faixa etária (45 anos). Graças a isso, tenho meu nome incluído na relação dos atletas que concluíram a Maratona em menos de 5 horas, publicada pelo jornal The New York Times.

Detalhe importante para o maratonista é o apoio do público, que o estimula a buscar a linha de chegada, ainda que isso lhe custe imenso sacrifício em determinados trechos que é obrigado a percorrer. Na Maratona de Nova Iorque, esse calor humano esteve presente durante todo o tempo para os brasileiros, pois os americanos têm grande carinho pelo nosso país e a nossa gente. Por onde passava, eu ouvia gritos de "Brazil, Brazil", e isso renovava minhas forças, assim como deve ter ocorrido com todos os brasileiros que participaram da prova.

Agora, parto em busca de outro sonho em minha carreira de maratonista. Com o tempo que fiz, e na minha faixa etária, estou certo de que consegui o índice para participar do circuito que constitui a nata das maratonas internacionais – equivalente, no tênis, ao chamado Grand Slam, que reúne os principais torneios do mundo. Refiro-me às maratonas de Berlim, de Londres, de Chicago e de Boston, além da de Nova Iorque. Assim como o candidato que tenta ser aprovado num concurso público, minha preparação será longa e cuidadosa para cada uma dessas provas, de modo que, tal como em Nova Iorque, ao final eu seja aprovado e classificado.

De volta a Brasília, estou feliz como nunca: participar da Maratona de Nova Iorque é a glória. Concluí-la, um triunfo. Constar da lista do New York Times, a realização máxima de todo maratonista.


Autor Prof. Granjeiro

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